você já sentiu que se parar o estímulo do novo, qualquer memória nossa velha, atravessa a barriga de um jeito que quase faz garganta, e interrompe o motivo do relógio, e faz daquela qualquer cena uma prova visual da não capacidade de esquecer nada nunca nunca mesmo? sentada em cima do coração da minha cozinha, eu imaginei todos os objetos coloridos e metálicos e de plástico voando ao meu redor. todas as panelas e garfos e facas e o que mais fosse da facção, esses que só estavam em suas mãos quando encharcados de bolinhas em espumas. logo risquei seu nome do quadro da limpeza da casa, que estava escrito em cima da data da última vez que você organizou os nossos meios. confesso, dou respiros pela metade porque acho que se muito ar chega ao meu fundo, pode ser que eu exploda. mas não de tristeza, isso não quero. estou pouco faminta de luto, pior dizendo eu estou é de saco cheio da espera pelo meu próprio choque, esse tal mesmo que nossos amigos demonstram nos maxilares, quando escutam do nosso fim. acho brilhante que quanto mais perto da falta melhor eu me sinto grande. é uma coisa inédita. adoro arrepios inéditos e exclusivos. o que não me escorre pelas bochechas, lambuza minhas coxas. quero isso mesmo, margarina no pão, água de alecrim, mãozinha de manjericão, risadinhas numa esquina, um antebraço safado no meio da metade da blusa, o empurra-empurra do desejo vibrando no meu corpo e passando na corrente de outro, uma taça de vinho para duas bocas, que o amor recente tinge junto, quero é celebrar o alívio de não precisar mais de uma estratégia para juntar os pedaços de presente num mosaico para que o futuro veja e diga: “lindo, que lindo, pode vir!”. não quero saber suas respostas e nem menos os seus motivos, mas quero fazer a pergunta, duas ou três, ainda não sei. quando eu fizer alguma idade dos cinquenta e poucos, quando eu descobrir como se escreve, vou dar para nossa história um livro. enquanto eu só tenho a parte do poucos dos cinquenta e poucos, e que sou uma escritorazinha de rede social, eu vou endereçar ousadias de formas outras. não por vingança ou pela vontade antiquada de um controle da narrativa, é mais pela minha destreza na hora de fazer a conexão entre a realidade e a fantasia. exatamente como é viver presa dentro desta tela. gostou do meu rostinho de pau cibernético em caracteres? consegue ver o viço do óleo de peroba da marca curte & comenta? olha você de novo em prosa, sendo mais do que pode o meu alcance estético do que do meu alcance sentimental! já sentiu que quando você se distrai em novos olhos orientais e mais maduros do que o seu, e enquanto aprende coreano com a sua nova família, e troca a boca suada de coxinha por montinhos de arroz em hashis, atravessa em você, de repente agora como um Hankumdo, já que seu próximo amado país é a Coreia do Sul, uma ou outra aleatoriedade que vivemos numa quarta de qualquer ano dos sete, às três da tarde? te interrompe e rasga, uma memória de segunda às seis e meia do fim do dia? e o que era mesmo o que você dizia, depois que eu servia nossos pratos para o jantar? não consigo lembrar. você já viu aquela série “the bear”? o carmy ficou preso na geladeira no dia da estreia do restaurante dele. não cozinhou, não foi prestigiado, não viu o prestígio e nem o movimento. ouvia a conquista acontecer abafada. tão perto, mas preso dentro de uma barreira de material pesado, onde soco nenhum adiantava, e raiva nenhuma poderia contra. a exposição do corpo ao perigo do frio não era o tema, era a agonia mesmo. para mim, aquilo ali foi tanta coisa. fiquei imaginando quantas vezes não existe uma barreira gelada que só abre para luz com a tecnologia de uma serra elétrica. chame de intervenção divina se for desses. chame de carinhos se for daqueles. de saber pedir ajuda se for beltrano. chame a serra elétrica de auto cuidado se for fã dos quotes motivacionais. sabendo ou não nomear o momento da serra, sei que é preciso estar agachado, com o olho no umbigo e os joelhos cansados da dobra. é preciso estar rendido a própria feiura. como eu queria que as nossas memórias fossem um tipo de serra atravessando, deixando a luz cegar o rosto aflito! não é não. lembrar é um outro tipo de corte. não é o arrombamento de salvação. uma coisa não tem nada a ver com a outra.
username
saí do correio esperando a chuva que cai humoristicamente em todo grande evento da minha vida. viro o pescoço para cima em protesto, mas não há o menor sinal de tempo ruim. nova york tem um cinismo: no verão, as ruas fazem que jamais seriam de neve. fazem que não seriam capazes. arranha-céus cobertos por nuvens só mesmo em cenas de filme: na realidade, flores aparecem bonitas como se jamais fossem galhos ressecados e molengas. nova york no verão finge que é verão o ano inteiro. nova york faz isso porque tem muita inveja do rio de janeiro. como qualquer outra cidade do mundo tem. há um porém: ao longo desses oito anos tão abençoados quanto malditos, coleciono histórias de chuva em dias importantes, ainda que no cinismo do alto verão. mesmo antes: das memórias que tenho dos dezoito anos que vivi no rio de janeiro, o que tem de oficial é molhadíssimo. rebobino as grandes chuvas e as vejo em todas as minhas conquistas, formaturas, assinaturas, términos, sexos, encontros, frustrações, sambas, forrós, assaltos, festas, crises, cortes, mudanças, primeiras vezes e últimas vezes. minha mãe sabe, e como ela é testemunha, eu não preciso mais que ninguém acredite. por isso não estou interessada a convencer você, leitor, de nenhum misticismo meu com a chuva. basta minha mãe e só. algum ser precisa ser supremo de vez em quando. conto em poucos dedos os meus aniversários que foram ensolarados. por isso fiz tanto gosto de passar meu dia em Nápoles no ano passado, já que é um feriado onde tradicionalmente o céu fica coberto por uma chuva específica: muitos fogos e muitos fogos e muitos mais fogos. por causa desse humor climático, fico irada que meu cabelo sobreviveu péssimo aos dias tão marcantes da minha história. tenho certeza que o meu dia mais bonita até hoje foi uma segunda feira aleatória e ninguém me viu. porque nos dias que estive para o mundo, provavelmente apareci derretida e eletrizada apenas de frizz. como foi o dia onze de julho de dois mil e dezenove, quando eu casei sob um temporal com direito a ameaça de ciclone. os convidados todos encharcados. o meu vestido branco terminava numa barra preta de lama. ao menos foi democrático: a beleza de todos se esvaiu e foi um casamento cheio de gente se achando feia. ríamos muito a cada taça de vinho servida por um garçom italiano de topete desmoronado. a lona do jardim voava em direção aos nossos corpos e gotículas geladas se misturavam com o suor do calor extremo que fazia. quase quarenta graus e ainda sim nada de sol. apesar da graça dessas histórias, jamais fiz romance da chuva. por exemplo, não consegui fazer as pazes com as fotos da cerimônia. acho tudo terrível. sem contar que a histeria foi tão grande que, menstruei no meio da festa, enquanto pensava em como traduzir a frase “estão gostando dos canapés?” para convidados que não falavam português. agora, me interrompe um pensamento: esse meu vestido de noiva que tem uma enorme mancha de sangue, hoje está empoeirado em algum lugar longe de mim. tentei muitas comunicações para tê-lo de volta. implorei, até. argumentei que queria muito guardá-lo, sei lá por qual motivo, mas queria. mas não obtive respostas do pedido. há um mês existe um silêncio absoluto funcionando como guia para qualquer tentativa minha de respiração ou fala. agora estou analisando esse querer, e quando digo agora, digo agora mesmo, enquanto decido sobre o que é mesmo que estou escrevendo, e como vim parar nesse pensamento do vestido. surge numa paranoia e acho que estou me expondo demais. ao mesmo tempo quero contar que já não sei mais onde caber, e que por vezes me incomoda existir em palavras num fundo branco digital. ao mesmo tempo estou alegre que esse é meu tipo de selfie. ou o meu tipo de reels. tenho blog desde os onze anos de idade. não me orgulho, deveria ter subido numa árvore, mas não subi. ao invés de cicatrizes no joelho, tenho memórias sonoras de intermináveis conversas no MSN com amigos virtuais que até hoje não sei quem são. nunca soube. como resultado, sinto falta de um monte de username que eu batia papo em flogs, blogs e fóruns. penso como que é possível que eu nunca me importei de perguntar o nome dessas pessoas. penso que na verdade eu sem querer ou por querer, sempre fui de algum jeito um fundo branco digital. novamente não sei como vim parar nesse assunto, mas fiz um gancho de sentido para meu mercúrio em virgem: acho que estou vivendo de novo o luto de ver morrer uma pessoa que eu aparentemente só conhecia o username. me volta do estômago uma lembrança: nos votos do casamento, escolhemos por coincidência, falar do significado dos nossos apelidos. choramos ao ver que decidimos o mesmo tema. o amor parecia telepatia. nalu também quer dizer onda e nossos nomes juntos faziam uma grande metáfora, ou piada, ou premonição, já não quero dizer. nossos nomes juntos fazem um caixote, ou um caldo, ou um tsunami, já não quero dizer. não que eu não seja também uma estranha de mim mesma, e completamente perdida em todas as minhas personas e apelidos, ainda conto mais, estou insuportavelmente mudando muito rápido para caramba, principalmente hoje em específico. hoje eu não quero nem ser mais a mesma que iniciou esse texto sobre a chuva ou sei lá o que mais! tenho preguiça (e uso a palavra preguiça por preguiça de pensar em algo mais nobre que defenda melhor o desejo) de concluir pelo início. hoje é um dia marcante e ainda sim ensolarado, portanto, desconhecido. hoje, nossos nomes se uniram ao cinismo do verão que jamais molhou ou girou antes. tudo seco e sem força. parece que ninguém nunca viu o mar. parece que ninguém nunca ficou tonto. é de novo muita inveja do rio de janeiro. não estou passando um ar de sanidade, eu sei, mas julgo que estou vivendo esse dia de um jeito sábio. ainda que não tenha a menor familiaridade com esse tipo de construção de memória. antes de virar o pescoço para cobrar do céu uma chuva, ainda dentro do correio, eu pensava na assinatura do meu nome viajando com aquelas outras palavras em serifa, dentro de um envelope, dentro de uma van estadunidense, tudo em velocidade super-sônica, pois chega ao destino até amanhã ao entardecer, e é bom mesmo que chegue, afinal paguei quarenta e cinco dólares para que aconteça. esse é um bom exemplo de um querer maior do que resgatar o meu vestido sangrento e enlameado. antes do correio, pesquisei o lugar mais próximo para fazer a notoriedade da minha assinatura, no google era um escritório, e na vida real era a sala de estar de uma imigrante polonesa muito simpática. enquanto ela fazia os carimbos, eu observava o improviso da casa misturada com estabelecimento, o cheiro de família adocicando o cheiro dos papeis, a porta residencial com uma placa avisando um comércio, a piranha em seu cabelo que gritava maternidade e sob seu colo uma gola de linho que tentava maior seriedade. “te achei tão nova antes, quando você entrou”, ela disse. “agora não mais?” eu brinquei. ela respondeu num tipo de humor chuvoso, que é o meu favorito, “ser divorciada é coisa de gente velha, não importa mais a sua idade, você agora é esse status, minha querida” e me devolveu o papel para que eu levasse ao correio.
sim
velhas sentadas num banco de uma rua vazia fazem que sim com a cabeça quando a gente passa. o clima também concorda. mesmo quando parece dirigir o céu no oposto do que a gente gosta. vejo nuvem demais. tudo está no ar e ao mesmo tempo tudo está semente. não vejo mais espaço para dúvidas quando é o mundo que diz que sim. quando é o planeta que agora Gira tanto para fora de uma órbita conhecida que já não permite mais que a confusão entre estrelas mortas ou vivas impeça que tudo faça reluz no próprio estilo de jeans não lavado e tecidos arrebentados ou um botão extra no bolso do blazer. você que me lê e já sabe que quando não tem vírgulas é que o negócio é mais de documento do que invenção pode começar a imaginar a linda história que ando vivendo e que me recuso a fazer juz em expressões pobres. tudo que é rico demais quando nítido eu acho que não posso fazer caber na minha audácia de juntar palavrinhas medianas. eu disse outro dia que encontrei o material para poesia mais bonita que eu jamais escreverei. é achando que ninguém espera nada de mim que eu passo a esperar um pouco mais do precipício. é assim que eu vou até a beirinha e fico esperando que o penhasco grite de volta um convite formal para um pulo solo em terras de legos virados para cima. dessa vez me surpreendi ao não encontrar nada que me amedronta. ficou parecendo muita coragem mas era na verdade uma prova da lucidez num gosto novo. o que talvez seja a mesma coisa. no final talvez a lucidez seja a maior coragem que se propõe um ser nascido sob um céu fervendo em leão. logo eu que geralmente faço pouco caso dos lapsos de uma sabedoria interna! fui me aventurar em um vão que mais parece um grande salão de dança e ao fundo um tango e nos cantos pontudos os puffs amarelos para quando meus pés cansarem dos Giros desgovernados. o que quero dizer é que me perceber apaixonada por um amigo é o lugar comum-incomum maior e ao mesmo passo o calor mais interessante que eu me propus desde que comecei a ser uma pessoa de decisões pequenas em explosões de fogos maiores. alimento uma alegria em mim que preenche a agonia do rótulo. mas não nego que perco bastante tempo pensando em como vou pedir perdão ao brejo que me acolheu. no universo de sapas eu estou com os pés sujos de lama e desço até a ponta da escada para encontrar um soldado do exército americano que ao tremer os braços me serve folhas horrorosas. têm pouco branco a mostra nos papeis onde estão cuspidos uma grafia inglesa nas palavras mais feias que eu já li em toda minha vida. é o meu nome grande completo em uma fonte de serifa antes da palavra AGAINST com o nome grande completo de um amor da minha vida. voltei para nova york há menos de um mês e até agora eu estou mastigando três novos temas. o primeiro é como fazer melhor uso da palavra vertigem. o segundo é que só mesmo dois corpos muito afins podem fazer um jazz com traumas escolhidos. o terceiro tema é uma ideia simples sobre o que fazer com o resto da minha vida que não Gira nunca mais. o pasme e o drama não estão vencendo porque não há nem jogo e nem prêmio e nem muito menos acervo pessoal que aguente mais um cacareco emocional. basta de diários ou souvenirs neuróticos obsessivos. deixo coisas num galpão onde jamais voltarei. tudo que poderá vir a ser história da história daqui para frente inventarei eu mesma. continuo a observar muitas nuvens. vejo uma em específico que poderia ser um tigre do horóscopo chinês caso quisesse. mas observo que ela escolhe se espalhar pelo azul e continuar só nuvem. menos teimosa eu penso que talvez eu deva escolher não ser feroz e mística quando é possível assumir uma estética fofa e variável e feita com um pouquinho mais de água do que o normal. pelo menos uma vez. vai que eu finalmente choro. é um outro tipo de contrato com o sim.
pelados no jazz
escreve sobre mim e fala do dia que eu aprendi a andar de bicicleta. não sei como foi. nem eu. então como eu faço para contar essa história? inventa já que a escritora é você. você sabe que se eu escrever sobre você não vai ser assim né. vai ser como? vai ser literal. eu vou falar sobre você pedindo para ser um texto meu. vou falar sobre a sua carinha na meia luz e seus olhos esbugalhados de mentirinhas. entendi. eu vou escrever sobre você pela primeira vez. primeira? primeira porque os outros foram sobre mim. é. é. acho que é um bom troço para amanhã. tem que ver que horas são. tarde. meio tarde. mas não dorme ainda por favor. eu? dormir? jamais. não coloca as duas mãos embaixo do queixo porque eu sei que aí não tem mais jeito! é instantâneo. eu sei. espera, seu corpo fica estranho assim, vira. todo torto. pois é, vira. não consigo dormir todo dia treze de maio. puxa uma conversa então. não sei. fala um tópico. sei lá. eu odeio quando começa uma DR nesse momento. eu também. nossa, é horrível. eu vivi muito isso. eu também. eu já fiz muito isso. eu não. sabe quando estamos prestes a dormir: tudo em silêncio: a pessoa diz: mas tem uma coisa que eu queria dizer… ai, é péssimo. é horrível mesmo. sendo que eu só queria dormir. mas eu geralmente sou a pessoa que quer conversar na cama. entendi. só que se hoje isso acontece, tenho preguiça. eu também. seria assim: ah, é mesmo? poxa, que pena. acabou então. então acabou. RISADAS RISADAS RISADAS RISADAS ESSA É UMA LINHA DE RISADAS. a gente não teria DR. não. mas se tivesse conversado sobre o processo, você não teria medo deu te dar um beijo do nada. eu não tenho medo. tem sim. tenho não. por que você acha isso? porque eu sinto. já viu que temos juntos quatro modos operantes? quais? uma versão nossa tem oito anos, outra tem quarenta, outra tem oitenta e outra é adolescente. NOITE COMEÇA E A GENTE DORME E AGORA É OUTRO DIA E ESTAMOS NUM RESTAURANTE. não tem nenhuma com vinte e poucos, como a realidade? não tem. acho que tenho que escrever o troço. escreve sobre mim. talvez eu publique um antigo, já escrito. pode ser. mas não é a proposta, me sinto traindo o blog. então escreve sobre mim. vou escrever agora, aqui no restaurante. tá bom então. depois a gente vai no jazz. a gente vai no jazz vestido assim? vai, e lá a gente tira o blazer. a gente tira tudo. sim a gente tira tudo. e fica pelados no jazz. pelados no jazz. ótimo título. pelados no jazz? é.
maligno essencial
fico te inventando correndo descendo pulando as escadas e eu sou o seu cavalo sem sela selvagem num jogo assim marrom e livre no deserto e digo a todos essa é minha nova paixão. olha lá mundo a minha nova paixão de mentirinha que nem meu cheiro sabe. faria também um pixe em revolta rasgaria um quadro fauvinista tacaria fogo em vestidos brancos e ficaria comigo apenas uma folha perdida no meio da minha bolsa com notas fiscais. prometo que te conserto e te ajeito e te viro do lado certo e escuto seu peito e comento sobre ele e a gente canta duas músicas do cazuza e ensaia nossa próxima peça que vai ser baseada nos fatos mais irreais. ando tão rápida e sem fôlego que a garganta faz uma emenda com a tosse e o dedo cisma que não há maneira outra a não ser a escorrida em espaguetes para dizer que sim eu estou completamente alucinada pela possibilidade de talvez quem sabe um dia sei lá assim eu possa ser muito feliz sem as suas amarras. sem as minhas amarras geográficas e um marzão com mate quase todo dia. penso que um dia a gente vai rolar numa grama e vai cair no mesmo exato ponto e vai bater a testa uma na outra. aí seu supercílio vai abrir e a gente vai correr para o hospital mais próximo e de lá você sai com um band aid escroto que quando tira três dias depois deixa um rombo na sua sobrancelha. eu rio bastante da sua sobrancelha faltando e faço um apelido sobre isso. você aperta minha cintura e faz uma piada eu me jogo em cima de você e a gente dá o melhor beijo da novela das nove. ou de um cinema argentino caso eu esteja num dia de ouvir tango. já que tem dias que eu ouço tango o dia inteiro. quero também que a gente ande pelas ruas até você ler uma placa e fazer uma piada que eu não vou rir não porque não é engraçado. mas porque não pode eu ser assim tão sorridente de novo. porque quero que você conheça meu lado amargo que é pra quando a gente dividir o mesmo lado do sofá e eu estiver num dia muito triste você saiba que eu também existo muito máxima dentro da melancolia e do estresse. é que com você parece que não acontece esses momentos mas vão ter que existir porque não é normal nem mesmo para nós que fingimos não ser. falando em extra-coisas-de-outros-mundos esses dias eu vi a madonna muito muito perto tanto que quase que enxergo o pelo do sovaco dela caso tivesse algum. acho que não tem. mas fiquei imaginando que tem pessoas que são tão reais que parecem um holograma mesmo que quando na sua frente. ou que são tão hologramas que quando na sua frente parecem tão mais reais do que a gente mesmo. madonna por exemplo parece um tipo de ser humano que é muito mais humano e supersônico do que nós a platéia. no meio do show lembro que estou num protesto duradouro que melhor seria dito como uma angústia de um luto que não sei qual. parece todo dia que alguém morreu e eu ainda não descobri quem foi. mas se eu ficar me perguntando muito talvez eu descubra que fui eu. só que teria sido muito maluquice da minha parte não ter comparecido ao meu enterro. deixo para lá. tenho canalhices mais importantes para resolver. prometi que não escreveria sobre o rio na minha última semana de coluna no brasil. não porque não tenha nada a dizer mas sim porque tudo que eu queria dizer era um choro chatonildo que só combinava com as cafonices que eu ando escrevendo sem parar. estou puta. estou apaixonada. estou mentindo. estou amiga. estou desamigando. estou minguante. cheia e a puta que pariu. ninguém acredita na minha paz e nem na minha despedida. eu digo que vou embora e peço que não me perguntem quando volto. mas para você eu voltaria galopando pois sou seu cavalo. quero que lembre. se você me perguntasse quando eu volto eu até responderia uma data num formato de sorriso. mas para isso eu preciso sentir que num beijo você me engole. que me mastiga tanto que a vontade de ser em todos os lugares ao mesmo tempo vire só a minha saliva escorrendo dentro da sua boca. mantenho os segredos e as aparências bonitinho. posso também parar o tempo para fugir com você para qualquer lugar do mundo oriental desde que me reste sempre o maligno essencial e um lugar de eco para ouvir sua voz como se fosse um gigante. vou te amar ainda mais se te ouvir mais alto. tenho essa coisa complicada com o barulho. volto ao o maligno essencial. é que tudo tem que ser sempre dentro bem bonitinho dos meus conformes já que os seus são uma merda. o maligno porque sou controladora e sobre isso não minto. o essencial porque se não for do meu jeito você jamais vai encontrar sozinho o caminho da minha coxa. tiro minha blusa e continuo demoníaca. é coisa de pele. há muitos de muitos para esse texto ser um grande drama sobre ir embora e eu quase que faço isso a cada linha. poderia estar despejando todas as ansiedades reais que tenho vivido desde dezembro no rio de janeiro. mas não é nada curioso que eu tenha escolhido pela milésima vez me distrair com uma obsessão ao invés de procurar material poético ou crônico dos próximos passos de volta ao brooklyn ao fim dessa semana. pois estou fazendo isso desde dezembro. não notou? resolvo se existe mais coragem mas prefiro não. prefiro encontrar uma maneira de finalmente pendurar uma rede num aparamento que ainda nem existe. isso sim é bravura. paredes segurando gente com ganchos. sinto saudades da minha chaleira elétrica e de uma geléia de pimenta que fica boa com um queijo trufado. vou covarde e tremida e muito que bem distraída.